Hoje eu quero falar sobre algo que está em todas as redes, em todos os lugares, e talvez até na sua cabeça, lhe incomodando toda vez que você é obrigada a confrontar suas próprias falhas, sua falta de dinheiro, sua inabilidade de fazer sucesso.
E já aviso: o problema não é você.
Em 2023, depois que meu contrato terminou e me vi com tempo livre, eu comecei a procurar mais oportunidades para participar de pesquisas remuneradas – algo que eu já havia feito algumas vezes e gostado. Logo descobri que esse é um dos vários side hustles (bicos) que circulam por aí como formas de tirar uns trocados, e que existem pessoas que fazem esse tipo de trabalho informal com muito mais frequência do que eu imaginava ser possível.
Não demorou muito para o algoritmo pegar a dica e começar a me sugerir conteúdos parecidos. Li um artigo no Medium, e no dia seguinte haviam 5 artigos relacionados na minha caixa de entrada. E mais 5 por dia, mesmo eu não tendo clicado em nenhum deles, até eu me cansar da perturbação e me descadastrar da lista. Mas nas redes sociais, o buraco é mais embaixo: não existe botão “descadastrar”, e leva tempo até o algoritmo entender quais são seus interesses.
Enquanto isso, meu feed começou a lotar de posts, vídeos e comentários feitos por pessoas diferentes, de várias partes do mundo, mas todos com conteúdo semelhante: “Veja como você pode ganhar [insira aqui um valor exorbitante] em apenas [espaço de tempo estranhamente curto] fazendo apenas [mínimo esforço]!”

Eu não sei vocês, mas quando essas coisas aparecem na minha timeline, uma enorme sensação de incompetência se apossa de mim. É como se eu, apesar de me esforçar tanto, não esteja sendo esperta o suficiente para ganhar dinheiro de uma forma que, em teoria, é tão fácil e acessível. Se tudo o que preciso é dedicar 20 minutos por dia criando desenhos no Paint* ou picando salsinha na cozinha de casa* para ganhar 1000 dólares por semana, por que continuo tendo que procurar emprego e trabalhar para pagar as contas?
Ah, mas essas pessoas nos vídeos têm justamente a resposta ideal para mim e para você, que a essa altura também deve estar questionando a sua própria capacidade. E a solução, segundo elas, consiste em fazer um pequeno investimento, ler um artigo e assistir uma série de vídeos rápidos, e no dia seguinte você já pode começar, mesmo sem experiência nenhuma, a faturar… HA! Notou como até essa “solução” é exatamente a mesma rodinha de hamster que lhe apresentou um problema que você nem sabia que tinha? – tudo é rápido, fácil, acessível mas você precisa agir agora, porque amanhã já terão 50 outras pessoas atraindo os seus clientes… E como você já fez o investimento, seria um desperdício não ir adiante com essa ideia para ao menos recuperar o que já gastou (ou mais! Muito mais! Ganhos ilimitados!)
Quero deixar bem claro que eu não tenho nada contra essas pessoas – afinal, vender soluções online é o trabalho delas -, mas quando se fala de trabalho informal, é importantíssimo para nós entendermos os nossos limites e nossas habilidades.
Eu já falei sobre isso aqui no blog e vou repetir: o foco e a consistência são essenciais para que qualquer trabalho, informal ou não, possa ser feito com eficiência de modo a trazer resultados. Eu escolhi estudos remunerados, anotação/validação de dados, e agora, um pouco de criação de conteúdo sobre esse tipo de trabalho – onde eu posto oportunidades em algumas redes e mantenho este blog – e só isso já me ocupa bastante tempo.
“Mas então, por que você não compra um curso desses para vender também? Se você adquiri-lo por $250 e vendê-lo por $250 para duas pessoas, já recebeu 100% de lucro!”
Eu não faço isso pelo mesmo motivo que me trouxe a escrever este blog: não quero pagar por um produto que impõe regras sobre como eu posso ou devo promovê-lo. Como profissional de marketing, eu tenho a liberdade de questionar métodos e falar abertamente sobre o que funciona ou não; e manter segredo sobre algo que estou tentando vender seria um conflito de interesses que vai totalmente contra os meus princípios éticos. Sem contar que a economia informal, a hustle culture e todas essas alegações que você encontra nas redes vem de um mercado onde existe pouca ou nenhuma regulamentação. Se na hora de pegar um empréstimo o banco dissesse “não se preocupe, os juros são de 2% ao ano” e no mês seguinte você recebesse uma conta com juros de 20%, você como consumidor teria recursos para fazer o banco reverter cobranças indevidas. Mas e no TikTok? Quem vai defender você e as suas finanças se a promessa de ganhos extraordinários acabar sendo mentira de um influencer só para ganhar curtidas?
Mais uma coisa: você sabe mesmo se esses ganhos que as pessoas vendem são reais? Lembre-se do viés do sobrevivente: você só ouve de quem está ganhando. Ninguém quer postar nas redes sobre o quanto perdeu e ninguém quer ler sobre os perdedores, porque isso é deprimente. Quem consume o conteúdo está em busca daquela dose extra de dopamina – todo mundo quer ver gente bonita, rica, bem-sucedida, porque é prazeroso internalizar o sucesso alheio e isso faz a gente se sentir vencedora também -, mesmo que o sentimento de inadequação venha logo em seguida, atropelando a nossa autoestima.
Portanto, cara amiga… se você ainda não enriqueceu clicando no mesmo botão 30 minutos por dia, a culpa não é sua. Não é a você que falta o instinto empreendedor ou a vontade de vencer. Continue fazendo a coisa certa e não deixe que a internet decida o seu valor.
Vou deixar um artigo da Business Insider aqui (em inglês) para quem quiser saber mais sobre o assunto: https://www.businessinsider.com/passive-income-tiktok-youtube-rise-of-side-hustle-hucksters-2022-10
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